sexta-feira, 29 de junho de 2007

Pequenas constatações diárias

Isso não é rímel, são as suas lágrimas disfarçadas de vida maravilhosa. As lágrimas que nunca evaporam, continuam a rolar no estojo de maquiagem. E voltam pro rosto. A vida é ritmada pela novidade, é por isso que as crianças gostam tanto de girar. Leve-se à festa na cidade, leve a sua bola, a sua mãe, o seu pai, o seu melhor amigo. Seja agradável, mesmo que ligeiramente. Sorria, ainda que escondido. Faça uma surpresa como o vento, refresque alguém. Dance ao som dos ritmos africanos, como os balões no céu, os estilistas no céu, os pompons. Luvas cirúrgicas são tão difíceis de se colocar, mas ficam tão bonitas nas mãos das nutricionistas. Comova-se com os pequenos animais, quebrados em algum lugar, nas ruas, tente conserta-los; comova-se também com os deficientes, com os tímidos, mas, esses, não, não tente conserta-los. Aprenda canções idiotas com a sua amiga para vocês cantarem durante as aulas de farmacologia, de pé sobre as mesas, em sinal de protesto. Observe os rapazes voltarem dos beijos nessas grandes festas, observe as moças, elas são sempre puras, mas você não é, nunca se é puro quando se tem mais histórias pra contar do que sapatos. O seu encontro com a linha de chegada é no dia em que você quer saber se pode correr muito, então deixe que o tempo passe à uma velocidade louca, talvez ele também queira encontrar a linha de chegada. À bordo do desmaio, demita-se, indo para a rua. Indo para a vida. Indo para o amor. Também há açúcar e desejo nas casas dos velhinhos. Explore a parte côncava dos braços abertos, experimente a nuca tensa de estar apaixonada. Há rapazes lindos que você nunca beijará e livros que você não lerá nunca, mas há outros que você comerá. Aí está, um móvel a montar. A desmontar. Extensões, torções. Cortes perfeitamente redondos se tornam cicatrizes perfeitamente redondas. O mundo é triste. O mundo é alegre. Mas não se deixe levar pela oscilação dessa máxima. Seja o que você quiser. Retorne a ligação. Ouça rádio. Não belisque os bebês. Estique os dedos. Estire-se. Abra os olhos. Feche os olhos. Um abraço.

(Créditos para Ju Fiúza)

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