domingo, 10 de junho de 2007

Auto - análise




Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou limitada ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo, a leste pela cegueira e oeste pela minha educação.
Me vejo numa nuvem, rodando, fluída...depois chego á consciência na terra, ando como os outros, me pregam numa cruz, numa única vida.
Faculdade. Indignada, me chamam pelo número, detesto hierarquia. Me puseram o rótulo de estudante, vou indo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio. Estou aqui, estou ali, desarticulada, gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar, alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem nem o mal.
Minha cabeça voa acima dos prédios, estou suspensa, angustiada, no éter, tonta de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos, não acredito em nenhuma teoria.
Estou com meus antepassados, me balanço em arenas espanholas, é por isso que saio ás vezes pra rua combatendo personagens imaginários; depois estou com meus parentes loucos, ás gargalhadas, na varanda de casa, olhando os girassóis do jardim.
Estou do outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente em todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça. Triângulos, estrela, noite, pessoas andando, presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção...o mundo vai mudar, a morte revelará o verdadeiro sentido das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias, me aninharei nos recantos no corpo dos noivos, na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá: vulcões de ódio, explosões de amor, outras faces aparecerão na terra, o vento que vem da eternidade suspenderá os passos, dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete homens, abraçarei as almas no ar, me colocarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas, eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes. Detesto os que se enganam, os que brincam com a vida, os homens práticos, os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães, os machos bem machos, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito...
Sou a presa da mulher que fui anos tempos passados, dos amores raros que tive, vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos da paixão, tudo é ritmo do cérebro da escritora. Não me inscrevo em nenhuma teoria, não acredito em nenhuma técnica – estou no ar, na alma dos criminosos, dos amantes desesperados, na sombra do meu quarto modesto, no pensamento dos homens que movem o mundo, nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando, sempre em transformação.Não ser feliz explica tudo. Uma vez que fui agraciada pela felicidade, sofro por tudo aquilo que não se pode dizer.

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